Foi ontem, na Praça Charles Miller, Pacaembu. Enquanto palestras, entrevistas e diversos eventos se desenrolavam no último dia da Feira do Livro, um batalhão de duzentos (ou mais) jovens militares ensaiava para a celebração da formatura de novos soldados da Polícia Militar de São Paulo.
A data da Feira do Livro já havia sido reservada (e garantida pela Prefeitura de São Paulo) há quase um ano. Então, a pergunta é inevitável: quem comeu bola? Foi a celebração do “que se danem os cidadãos”? Parece que sim, porque a PM ignorou olimpicamente a realização da Feira e se impôs no meio da multidão de jovens, crianças pequenas, bebês em carrinhos, cães, idosos… Me lembrei da ditadura, quando era impossível se estabelecer um diálogo entre militar e cidadão.
A simbologia é mais do que clara: enquanto educadores, escritoras (es) e editoras (es) espalhavam conhecimento e ofertas de alimento literário, um bando de novos soldados marchava, a corneta gritava, e todos eles saudavam alguém ou alguma coisa no meio da multidão. Será que saudavam o livro? A leitura? Ou saudavam os pneus que estavam por ali, escondidos em algum canto da praça?
País triste o nosso. Parte dos seus “comandantes” ignora a preciosidade dos livros e da educação progressista, arrastando-se pela trilha do atraso e optando pelo caminho do autoritarismo, da falsa moral e, em vários casos, da boçalidade. Ainda assim, cantamos, dançamos e celebramos a educação e os bons livros.