O BAILARINO MANGA-LARGA

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Claudio Adão era um cavalo de raça. Um manga-larga preto, majestoso, bailarino reluzente. Quando entrava em campo, suas passadas me faziam acreditar que a beleza também estava no trote, no meio de uma apresentação trivial à plateia.

Aos meus olhos de adolescente, a maneira como Adão corria me levava ao templo onde morava Pelé. E, atento e maravilhado, acabei juntando-os – para mim, a junção queria dizer a mescla de uma beleza inalcançável, definitiva, mas que servia como referência do ápice.

Depois, ao ver Claudio subir para cabecear, percebi que se tratava de um especialista na arte de voar com graça e potência. Aquele nº 9 vestido com a camisa mais preciosa do planeta era a tradução da liberdade grega. Mais tarde, se cobriu com o manto mais lindo do mundo, ao atuar ao lado de Zico, o maior depois de Pelé.

As comemorações de Claudio Adão também carregavam beleza. Ele saltava no alto com leveza e força, como se isso fosse natural. E, apenas para colorir o momento já emocionante, abria um sorriso lindo que iluminava todos os estádios por onde desfilou sua maestria.

Claudio Adão jogou com Pelé e Zico. E jogou bailando, entendendo e se fazendo entender. Seu corpo negro, forte e esguio impressionava os adversários – eles o respeitavam porque o temiam, porque não sabiam o que viria, embora intuíssem o perigo. No panteão dos meus ídolos de infância e adolescência, Claudio Adão é um dos mais iluminados. E, neste poema em prosa, agradeço-o por tanta beleza oferecida ao longo de duas décadas. Não há mais jogadores-bailarinos como ele.    

(Série FELIZ ADOLESCÊNCIA)

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